
Fui num pagode na Casa do Rao...
Na 206 Sul, distante e acima, distante bem longe em andares súbitos daquele vazio que se espalma nos espaços térreos dos apartamentos funcionais de Brasília; mas próximo, bem próximo do silêncio que habita as finas paredes que separam a individualidade de cada habitante destes prédios semelhantes aos conjuntos habitacionais de Moscou, habita uma loucura cultural hindu-jazzística, que foge a compreensão de quem tem ouvido de menos e cuca fechada demais.
Foi numa noite dessas, muito bem acompanhado por minha gata, que pude conferir o quanto se celebra a Catedral do Som PluriCultural, espaço Picasso sem Baixo Astral, no Sarau de Anand Rao (o gigante gentil de camisa vermelha).
O Rao é um Raj, do The Big Bang Theory, às avessas - nada tímido, nem astrofísico, nada matemático, mas pura loucura na construção de seus relatórios jornalísticos e na burilação de sua música dodecafônica, que desarranja sutilezas de escalas em tons e semitons e propaga um som construído de improviso, com letra de improviso e viagem de improviso.

Já se tornou - em seu universo seleto e com hora pra terminar, 22h, senão a vizinha do andar de cima bate a vassoura no chão e intima pra baixar a macrofonia - um compromisso da happy hour de amigos mais íntimos ou dos que curtem uma boa música, regada a muito bolinho de bacalhau, saber que na noite de sexta tem um Sarau na Casa do Rao.

Laura e eu descobrimos que, entre incursões radicais do Jazz que executa todo ano em Montreux e as músicas incidentais que amigos não menos talentosos costuram em suas teias indianas, o Rao é um bonachão - bicho-grilo sem firulas e direto ao assunto (melhor que Nêumanne Pinto), sempre inspirado pela presença da platéia que transmigra o olhar atento de sua mais importante jurada e fiscal de lei-seca, a harmoniosa Agnes, sua simpática esposa; além de um papa-léguas a 10 mil por hora e dalit zen-cerveja.
Conheci Rao no trabalho e nunca imaginei que em Brasília - imaginando tudo - poderia encontrar tão rapidamente uns Bandoleiros do Chick Corea concentrados num pequeno espaço chamado de "Baskhara Rao" - que nada mais é do que a sala do figura, que ele nomeou em homenagem ao pai, um indiano que lhe disse que dessa "vida só se leva a farra." Espirituoso, não??
O certo é que o Rao sabe que a contribuição de sua música alimenta os poucos descendentes de Ravi Shankar que lhe aguçam as notas com que trança o Som. Os amigos são a inspiração para suas composições - e até minha mulher recebeu também sua homenagem em letra de improviso e música não menos... O sarau da sexta foi em sua graça.

Nunca provei comida indiana, nem fui ao Rajastão, não andei de elefante e pouco pretendo virar pó às margens do Ganges, mas posso dizer que a música indiana desse beatnik de Brasília faz a Índia mais próxima em nossa aura, do que supunha imaginar o matemático Baskhara no cálculo da Teoria das Cordas do violão mais próximo; mas nem de longe do que poderia imaginar o velho bom vivant Baskhara - o pai do Rao - que de algum lugar daquela sala sabe que o filho seguiu seu conselho à risca: gostar de uma boa farra, mesmo que com hora pra acabar...
Nada como um filho que segue um bom e sábio conselho paterno.
(F.N.A)
Fico lisonjeado com tão belo texto mas, o evento não teria o brilhantismo que teve se não fosse o Mestre Fredson, guitarrista de mão cheia, poeta singular, apaixonado pela vida. Anand Rao
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