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Lá no sítio de meu pai, uma onça tinhosa achou de começar a matar o gado próximo a uma represa. Armados, que nem deputado em dia de safari, seguiram pra fazer a 'espera', meu pai e meu tio, Manim, na cabeceira da velha ponte que cortava o lago. Isso era lá nos anos 70, quando preservação ecológica na Amazônia não se traduzia, mas sobrevivência na selva era uma apostila de permanência na terra.
A onça, como que adivinhando a tramóia, dava descanso no abate das reses. Daí, os caçadores sem foro permaneciam por ali dias a fio... E nada.
Belo fim de tarde, meu tio que seguiu sem arma, nem pólvora e sem faca, pra beira do açude pra tomar banho, quando estava desapercebido (se lavando pra janta de mais um pouco), mergulhou e no que boiou... lá estava a bichana olhando pra ele. Nunca nadou mais rápido na vida. Daí, pra ter de novo a oportunidade de matar a fera...
Tio Manim pecou porque subestimou animal arisco em seu habitat - mesmo tendo sido uma velha onça.
Fui lembrar dessa estória da infância, quando comecei a ler sobre o ocaso do líder do PMDB, ou "o governador do Bico", como se intitulava, Osvaldo Reis - vítima de ações políticas (naturais) dentro de seu próprio cercado.
Osvaldo, que já foi matreiro (e creio que ainda é), astuto (como um felino), desconfiado (igual cavalo que entrou dentro de casa) e inchado (como um cururu tetei) envelheceu em sua própria floresta e não viu a chegada de outras feras na porta de sua toca. Se viu (e viu!), tentou rosnar, combater, mas faltou unha afiada pra dar a patada no corpo a corpo.
Osvaldo é um caso interessante de líder tocantinense. Não diferente de outros que surgiram, soube comportar sua base na região norte do Tocantins como um 'Pai': a todos providenciava ajuda, à sua maneira, e dessa força se aprazia tendo sido eleito várias vezes para cargos públicos.
Mas, Osvaldo, a velha fera, não contou com a nova safra da mudança, da modernidade, da celeridade que é a conquista de territórios dentro da política sempre faminta e voraz do dia a dia, onde não se pode dormir com olhos fechados e muito menos se pode fazer barulho, senão vira janta.
Os novos peemedebistas, mais próximos do Palácio em razões geográficas e políticas, foram lhe engolindo aos poucos, como uma sucuri engole um novilho depois de quebrar-lhe os ossos, asfixiando-o primeiro.
Mas não foram apenas razões que a própria razão desconhece. Foi apenas a Lei da Selva.
Cercado por escolhas erradas em apoios titubeantes, conflitantes com o ex-governador, com o PMDB, além de quando se aliou a Gaguim e se desaliançou de tudo e de tudos, o velho político perdeu espaço. E nessas horas a máxima de Getúlio Vargas é sempre uma verdade inquestionável - "a política vive da traição, mas liquida os traidores."
Se traiu ou não traiu colegas ao longo da vida política, não se conta, afinal a inconstância partidária e o apoio escamoteado fazem parte do processo dessa máquina de moer carnes mais sensíveis.
O certo é que quem manda no PMDB, agora, é o sangue novo que destituiu o passado da legenda. E tudo isso à custa de arranjos, composições e antecipações que Osvaldo não soube perceber no cheiro de perigo que avançava pela floresta, mas que não lhe chegou ao olfato - dormia quem sabe um sono esplêndido ou não conseguia acordar do próprio pesadelo.
Mas, até mesmo um velho político sabe dar seu pulo de banda, como um animal acuado, prestes a ser sacrificado. Não creio que Osvaldo esteja num fim sentenciado. Apenas não tem forças, agora, pra continuar se alimentando. E nem só de força bruta vivem os seres da Terra - se fosse assim, com apenas a força prevalecendo (e não a estratégia e a astúcia), as harmonias vigentes numa selva não teriam animais que se adaptam para sobreviver - e política é adaptação em sua carga mimética máxima.
Não acredito que Oswaldo deu seu último suspiro - descontando qualquer comentário sobre vida pessoal, até porque foro íntimo só a cada um lhe cabe. Para mim, ele é como aquela onça no sítio de meu pai, lá 30 anos atrás: sabe o córrego em que caça no fim do dia.
(Fredson N. Aguiar)
P.S - Há quatro anos, todos sentenciavam que Siqueira estava morto e enterrado. Todo mundo viu no que deu...
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